em dia de chuva. folia?

como a chuva que caia deixando o céu cinza – mas lá onde os olhos já quase não alcançam era possível encontrar um rasguinho de céu azul. tímido. encolhido. quase querendo esvanecer: assim parecia a vida de lia agora. algo de aliviante como aquela chuva de verão, mas também algo de turvo. de acinzentado. e somente lá no quase-fim um suspiro de esperança de que o futuro seria azul.
todos os dias a mesma rotina. todos os dias um tal de tentar entender seus sentimentos enquanto o sono não vinha. e quando ele vinha já não se sabia: podia ser bom ou nem. podia também ser insônia. ou às vezes mosquito.
lia lia e relia. devorava livros brincando de entrar na vida dos outros. brincando de ir e vir, lia ia. de quando em quando parava, se perguntava para onde, e então fazia de conta que não era com ela. afinal, quando ia já não era mesmo lia.
lia gostava do silêncio da casa. e quando a casa estivesse barulhenta, gostava do silêncio de si mesma. só falava quando queria. e sorria se perguntassem de sua quietidão. ela gostava mesmo era de olhar o mundo – mas com essa cinza chuva, mundo já não se via.
agora o que lia queria mesmo saber era o que seus olhos estariam a procurar. sede de que teriam seus curiosos olhos agora? queriam a sensação de sentir-se em casa mesmo estando longe, isso lia sabia. mas onde? onde, afinal, é o longe?
por não saber onde era o longe, lia lia.
lia e olhava o céu. e lá no fundo, quase perto do infinito, lia sabia que aquele rasgo de azul, era o azul que só lia via.