as flores do caminho

Quando decidia ir, precisava sempre que fosse logo. De imediato. Voando. E ainda assim lhe parecia sempre demasiado demorada a chegada. Quase sofrida, não fosse o iminente alívio de retornar ao seu eterno lugar. No céu ainda, deixava que a imaginação voasse por sobre as nuvens: imaginava seus dias em terra firme, e era capaz de construir imensas listas mentais de todas as coisas que queria fazer, as pessoas que queria rever, os abraços que queria dar e até as lágrimas que queria derramar – tudo isso antes de já ir embora outra vez. Sabia que eram listas impossíveis de serem cumpridas – nem mesmo se o tempo fosse espichado ao máximo – mas só o prazer de construí-las já era um pouco como concretizá-las.
No breve intervalo entre a chegada e a nova partida, tudo um pouco em suspenso ficava: a vida diária suspensa para que a vida pudesse ser vivido na extremo das sensações, ali, no limite de tudo. Até a quase exaustão. Não se importava em gastar as energias todas e ainda abria mão de quase toda a reserva que tinha para esses casos especiais. Deixava no tanque apenas o suficiente para ainda poder respirar – porque até mesmo o ar de lá era diferente. Lhe fazia bem. Fazia com que se sentisse bonita outra vez. Por isso de tempos em tempos era preciso respirar fundo.
Ainda que não quisesse. Ainda que fisicamente doesse. Ainda que deixar pessoas e lugares para trás tivesse, involuntariamente, quase se tornado sua especialidade. Ainda assim, chegava um momento em que era preciso partir outra vez. Momento em que toda a intensidade que havia invadido a vida iria de pouquinhos se dissipando – na busca por outras vidas improdutivas a serem invadidas. E quando chegava então o tal momento do regresso, o melhor mesmo era apoiar-se nos ombros do silêncio (afinal os abraços mais silenciosos costumam também ser os mais doloridos). Ou quem sabe na singeleza de um “até amanhã”, irônico, hipócrita ou profundamente verdadeiro porque exprimia até a vontade que não podia ser dita. Em meio a isso tudo, era preciso partir aos poucos. Era preciso partir por terra, o mais lenta e cuidadosamente possível. Era preciso partir prestando toda a atenção no caminho – em cada um de seus detalhes – marcando cada um de seus quilômetros com uma flor, que era pra depois sempre saber como voltar.